felicidade

descobrir o que te faz feliz
para tornar a vida difícil
alegrar-se ao sol
para fumar na chuva
colocar o inverno
antes das mãos
lavar a carne
para dar ao cão
ao rés do chão
levar as pétalas
sujar os pés
deitar-lhes sais
de banho em trajes
vais vestido
para o carnaval
sudário
para os dias de branco
para o preconceito
um casaco caro

(Publicado na revista Nefelibata #1 em dezembro de 2014)

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Raul Bopp, Cobra Grande & Senzala

Em literatura e, ainda mais, em poesia, o indivíduo leigo – que senta ao nosso lado no banco do ônibus e cujo conhecimento na área vai até as aulas do Ensino Médio – costuma ser um excelente termômetro.

A grande maioria dos autores consagrados para nossa “formação” são completamente desconhecidos a esse indivíduo. Os que são lembrados podem ser considerados popstars. Camões, por exemplo. Todo mundo já ouviu falar de Camões e d’Os lusíadas.

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Cordéis cepecistas de Ferreira Gullar

No início dos anos 1960, marcando sua adesão à militância partidária do comunismo, Ferreira Gullar publicou alguns cordéis pelo Centro Popular de Cultura (CPC), do qual chegou a ser presidente.[1]

O CPC foi um grupo que, apesar de autônomo, era inerente à ideologia do Partido Comunista Brasileiro. Essas publicações não são apenas uma reviravolta na produção que o poeta maranhense vinha realizando até então. São também uma forma de tocar em uma das questões menos resolvidas e mais discutidas ao longo do ciclo do nosso modernismo literário: a relação entre a arte e sua recepção por parte do público.

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Virna Teixeira em Trânsitos

O modo como a poesia se configurou como sistema – ou se formou, diria Antonio Candido – no Brasil abre espaço para alguma proposta que se relacione, para além da “queima de capital poético” (Mário Faustino), à tradição? Senão, o que é possível propor hoje em termos de poesia? Qual o peso da tradição, ou quais as responsabilidades que lhe são atribuídas?

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Morte e vida da Antropofagia

O lançamento da edição de Vida e morte da Antropofagia, de Raul Bopp, em comemoração aos 80 anos do movimento, resgata uma discussão ainda não concluída sobre a influência das artes na constituição de uma cultura legitimamente nacional.

Esse livro de memórias, originalmente publicado em 1977, é uma evidência da lapidação do projeto cultural da Antropofagia. E o contato desse movimento com a crítica especializada levanta a toalha dos parâmetros de inclusão e exclusão no campo literário brasileiro.

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