As hooooras de Katharina

Enquanto retornava de sola ao Brasil, em 1993, depois de um exílio mal explicado, e era recebido de forma ainda pior pela maior parte da intelectualidade local, Bruno Tolentino publicou As horas de Katharina, em 1994. Este livro também volta, agora, à pauta por conta desta edição, recém lançada, que inclui a peça A andorinha, ou: A cilada de Deus. Continuar lendo “As hooooras de Katharina”

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André Argolo traz chuva do litoral

A meu ver, o potencial de André Argolo foi descoberto tardiamente. Seu livro de estreia, Vento noroeste, assim como a crônica homônima de Vinicius de Moraes, deixa a gente com a boca seca e o coração gelado. Continuar lendo “André Argolo traz chuva do litoral”

A retirada estratégica de Drummond

Em fevereiro de 1957, um Mário Faustino tão irônico quanto precipitado clamava do coreto da “praça de convites” pelo retorno do sr. Carlos Drummond de Andrade ao front. Suas palavras, proferidas por meio de Poesia-Experiência, a página de poesia do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, eram focadas na agonia do momento poético brasileiro e traziam à tona um Drummond entrincheirado no campo literário daquele período. Continuar lendo “A retirada estratégica de Drummond”

Treva alvorada de Mariana Ianelli

Mariana Ianelli, neta de um mestre das artes plásticas, é bastante jovem. Apesar disso, possui um currículo tentador para o mercado editorial. Publicou seu primeiro livro aos 20 anos e outros cinco volumes em um intervalo de praticamente dez anos, todos pela Iluminuras (com tratamento gráfico impecável).

Ela também é mestre em Letras pela PUC-SP, ela colabora com resenhas para a grande imprensa, foi duas vezes finalista do Jabuti, outra do Bravo! Prime de Cultura e ainda recebeu, em 2008, o valioso Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) de literatura na categoria Juventude.

Com essa constelação de obras, prêmios e colaborações, a recente publicação de mais um livro de poemas, Treva alvorada (Iluminuras, 2010), de Mariana Ianelli, é digna de atenção. Continuar lendo “Treva alvorada de Mariana Ianelli”

A África mascarada de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa foi para a África do Sul dois anos depois do falecimento de seu pai. Em razão das segundas núpcias de sua mãe com o cônsul de Portugal em Durban, Pessoa passou a morar nessa cidade, onde ficou por praticamente dez anos. Exceto o período entre 1901 e 1902, quando esteve de férias, lá viveu dos 7 aos 17 anos de idade. Morreu apenas 30 anos depois.

O fim do século 19 marcou a África do Sul pela consolidação da hegemonia britânica sobre a Europa e a África. Influência atuante até o primeiro quarto do século 20, essa cultura montada no calvinismo, e admirada por Fernando Pessoa, tornou-se a responsável por moldar a educação do jovem poeta.

Apesar de ter sido um momento-chave para a estratificação da(s) sua(s) personalidade(s), não há nenhuma referência por parte de Fernando Pessoa ao tempo em que viveu na África. E, nas raras vezes em que mencionou a educação que teve na juventude, o fez como tendo sido de procedência inglesa.

A escola que frequentou naquela época chama-se Durban High School, em tudo voltada para os padrões ingleses, da grade curricular ao corpo docente. Foi nela que ele estruturou seu paideuma, essencialmente em inglês, incluindo Shakespeare, Milton, Carlyle e Macaulay.

Alexandrino E. Severino atribui a esse distanciamento que surgiu entre o poeta e cultura e língua portuguesas a possibilidade de Pessoa ter operado uma renovação no idioma lusitano. Mais que isso, os heterônimos que marcaram a obra pessoana são a evidência de uma exploração única do conceito de alteridade, principalmente, e contraditoriamente, com relação a si mesmo.

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Sobre uma versão da “Pedra de sol” de Octavio Paz

Uma análise de consumidor nos mostra que a poesia tem encontrado seu habitat no mercado brasileiro a partir de uma onda de quantificação, com exceções muito bem-vindas, diga-se. Ou seja, enquanto os critérios de estudo e produção de literatura foram se dissolvendo ao longo das últimas décadas, temos verificado uma reação do mercado editorial de forma a suprir essa carência, por assim dizer, com a publicação de um sem-número de novos poetas e novas obras.

No caso da tradução de poesia, o que se verifica é um processo semelhante, embora dentro de um panorama um pouco menos privilegiado: ainda faltam traduções de livros de poesia e de poetas de todos os tempos. Ao mesmo tempo em que encontramos antologias de poesia galega – catalã, francesa, romântica, barroca – ou Shakespeare vertido para o português por um Millôr Fernandes em versões de bolso na banca de jornal da esquina, há outros tantos clássicos e/ou contemporâneos carecendo de maior inserção no mercado editorial brasileiro.

Um caso interessante, o do mexicano Octavio Paz, é digno de nota. Dos anos 1980, a versão do poema “Blanco” saída das mãos de Haroldo de Campos é uma aula, não apenas de tradução, mas de vida. “Transblanco” está no cerne de um diálogo marcado tanto pelo experimentalismo concretista como pelas linhas de força da discussão em torno da poesia na América Latina. Mais que isso, ao arejar a visada poundiana de tradução como crítica e fazer uso dessa prática como meio de criação, o grupo de Noigandres presenteou seus leitores com uma abordagem rica e inusitada do ato de traduzir.

Também da segunda metade dos anos 1980 é a versão de Horário Costa para o poema “Piedra de sol”, do mesmo Octavio Paz – publicação meio sumida, pela editora Guanabara –, que retorna em edição bilíngue e tratamento de luxo (capa dura de tecido e letras douradas) pelo selo Demônio Negro. Resgate mais que oportuno.

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