A retirada estratégica de Drummond

Em fevereiro de 1957, um Mário Faustino tão irônico quanto precipitado clamava do coreto da “praça de convites” pelo retorno do sr. Carlos Drummond de Andrade ao front. Suas palavras, proferidas por meio de Poesia-Experiência, a página de poesia do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, eram focadas na agonia do momento poético brasileiro e traziam à tona um Drummond entrincheirado no campo literário daquele período. Continuar lendo “A retirada estratégica de Drummond”

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Treva alvorada de Mariana Ianelli

Mariana Ianelli, neta de um mestre das artes plásticas, é bastante jovem. Apesar disso, possui um currículo tentador para o mercado editorial. Publicou seu primeiro livro aos 20 anos e outros cinco volumes em um intervalo de praticamente dez anos, todos pela Iluminuras (com tratamento gráfico impecável).

Ela também é mestre em Letras pela PUC-SP, ela colabora com resenhas para a grande imprensa, foi duas vezes finalista do Jabuti, outra do Bravo! Prime de Cultura e ainda recebeu, em 2008, o valioso Prêmio Fundação Bunge (antigo Moinho Santista) de literatura na categoria Juventude.

Com essa constelação de obras, prêmios e colaborações, a recente publicação de mais um livro de poemas, Treva alvorada (Iluminuras, 2010), de Mariana Ianelli, é digna de atenção. Continuar lendo “Treva alvorada de Mariana Ianelli”

A África mascarada de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa foi para a África do Sul dois anos depois do falecimento de seu pai. Em razão das segundas núpcias de sua mãe com o cônsul de Portugal em Durban, Pessoa passou a morar nessa cidade, onde ficou por praticamente dez anos. Exceto o período entre 1901 e 1902, quando esteve de férias, lá viveu dos 7 aos 17 anos de idade. Morreu apenas 30 anos depois.

O fim do século 19 marcou a África do Sul pela consolidação da hegemonia britânica sobre a Europa e a África. Influência atuante até o primeiro quarto do século 20, essa cultura montada no calvinismo, e admirada por Fernando Pessoa, tornou-se a responsável por moldar a educação do jovem poeta.

Apesar de ter sido um momento-chave para a estratificação da(s) sua(s) personalidade(s), não há nenhuma referência por parte de Fernando Pessoa ao tempo em que viveu na África. E, nas raras vezes em que mencionou a educação que teve na juventude, o fez como tendo sido de procedência inglesa.

A escola que frequentou naquela época chama-se Durban High School, em tudo voltada para os padrões ingleses, da grade curricular ao corpo docente. Foi nela que ele estruturou seu paideuma, essencialmente em inglês, incluindo Shakespeare, Milton, Carlyle e Macaulay.

Alexandrino E. Severino atribui a esse distanciamento que surgiu entre o poeta e cultura e língua portuguesas a possibilidade de Pessoa ter operado uma renovação no idioma lusitano. Mais que isso, os heterônimos que marcaram a obra pessoana são a evidência de uma exploração única do conceito de alteridade, principalmente, e contraditoriamente, com relação a si mesmo.

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Sobre uma versão da “Pedra de sol” de Octavio Paz

Uma análise de consumidor nos mostra que a poesia tem encontrado seu habitat no mercado brasileiro a partir de uma onda de quantificação, com exceções muito bem-vindas, diga-se. Ou seja, enquanto os critérios de estudo e produção de literatura foram se dissolvendo ao longo das últimas décadas, temos verificado uma reação do mercado editorial de forma a suprir essa carência, por assim dizer, com a publicação de um sem-número de novos poetas e novas obras.

No caso da tradução de poesia, o que se verifica é um processo semelhante, embora dentro de um panorama um pouco menos privilegiado: ainda faltam traduções de livros de poesia e de poetas de todos os tempos. Ao mesmo tempo em que encontramos antologias de poesia galega – catalã, francesa, romântica, barroca – ou Shakespeare vertido para o português por um Millôr Fernandes em versões de bolso na banca de jornal da esquina, há outros tantos clássicos e/ou contemporâneos carecendo de maior inserção no mercado editorial brasileiro.

Um caso interessante, o do mexicano Octavio Paz, é digno de nota. Dos anos 1980, a versão do poema “Blanco” saída das mãos de Haroldo de Campos é uma aula, não apenas de tradução, mas de vida. “Transblanco” está no cerne de um diálogo marcado tanto pelo experimentalismo concretista como pelas linhas de força da discussão em torno da poesia na América Latina. Mais que isso, ao arejar a visada poundiana de tradução como crítica e fazer uso dessa prática como meio de criação, o grupo de Noigandres presenteou seus leitores com uma abordagem rica e inusitada do ato de traduzir.

Também da segunda metade dos anos 1980 é a versão de Horário Costa para o poema “Piedra de sol”, do mesmo Octavio Paz – publicação meio sumida, pela editora Guanabara –, que retorna em edição bilíngue e tratamento de luxo (capa dura de tecido e letras douradas) pelo selo Demônio Negro. Resgate mais que oportuno.

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Gilberto Freyre, Sônia Braga e Vera Fischer

A segunda edição de Modos de homem & modas de mulher, de Gilberto Freyre, foi publicada recentemente não apenas com a utilidade de reviver uma obra esgotada e quase esquecida desse intelectual brasileiro. Serve também para alertar quanto aos riscos de ainda se ler Freyre como uma justificativa da eugenia e da invasão ou dominação cultural, sem falar também das questões de sexualidade, outra problemática inerente à obra. Mas, antes, cabe notar o uso dinâmico, por vezes irrestrito, que ele faz do termo “moda” no livro.

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Um livro honesto

Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas…

(Rubem Braga)

O que mais me desagrada, falando como consumidor, é a propaganda enganosa. A senhora leitora me desculpe pelo tom de reclamação que invade logo a primeira frase deste texto. Encare essas palavras como um desabafo de um homem novo, porém cansado da rotina irremediável de comprar gato por lebre. Explico-me. Mas, antes, peço novas desculpas, desta vez, por certas propensões de estilo do velho Braga que tomaram de engano esta resenha. Explico-me a respeito disso também.

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Raul Bopp, Cobra Grande & Senzala

Em literatura e, ainda mais, em poesia, o indivíduo leigo – que senta ao nosso lado no banco do ônibus e cujo conhecimento na área vai até as aulas do Ensino Médio – costuma ser um excelente termômetro.

A grande maioria dos autores consagrados para nossa “formação” são completamente desconhecidos a esse indivíduo. Os que são lembrados podem ser considerados popstars. Camões, por exemplo. Todo mundo já ouviu falar de Camões e d’Os lusíadas.

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