André Argolo traz chuva do litoral

A meu ver, o potencial de André Argolo foi descoberto tardiamente. Seu livro de estreia, Vento noroeste, assim como a crônica homônima de Vinicius de Moraes, deixa a gente com a boca seca e o coração gelado.

E um coração frio só cativa pela fineza com que lida com instrumentos como “cinismo”, “sarcasmo”, “ironia” etc. Pois há também o livro que é doce na boca, mas desce amargo. A sede de chupar limão, nas palavras de Vinicius. “Yesterday I woke up sucking a lemon“, nas de Thom Yorke. Uma alteridade implacável, mas que não deixa de rir, inclusive de si mesma. É a isso que Vento noroeste se propõe e o faz com naturalidade.

A obra de Argolo, assim como na crônica do “poetinha”, evoca de um fenômeno da natureza o humor da sociedade, que infelizmente leva à constatação de que mais de meio século depois, o vento noroeste persiste em ameaçar os brios de nosso cotidiano.

O livro começa com “Umidade relativa”, confirmando logo na primeira estrofe do primeiro poema, “A cores”, a expectativa gerada em torno da proposta do título:

Sempre nessa época do ano
a vida fica
insuportável.

Eis aí também a amostra de um talento para poucos, o arte da simplicidade. Os versos de André condensam toda a estrutura do intertexto que virá adiante. Um panorama que não preciso descrever, pois estamos todos sentindo isso hoje, pouco mais de seis meses depois da publicação do livro.

Pouco antes de esse capítulo terminar, o poema “Vento noroeste” literalmente passa em uma página escura pela obra, trazendo em seguida o “Dilúvio” tão esperado por Vinicius de Moraes em sua crônica. Por fim, o “Empoçamento” dá nome à terceira parte, registrando a experiência do autor com as condições do tempo em tempos de pigarros e intolerância.

A última parte do livro, chamada “Evolução”, contém apenas sete poemas que marcam uma tentativa de abranger voos mais altos, ainda em consonância com a natureza dessa escrita. André Argolo mostra que fez o dever de casa e tem assinatura.

Talvez sejam a modéstia em detrimento do potencial e, em alguns momentos, um tom confessional o que havia por dispensar na execução da proposta. Ainda assim, Vento noroeste mostra que não deve à tradição que evoca e que pode tratá-la com autenticidade.

(Veja o original publicado no site Resenhando.com em maio de 2015)

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